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AL está próximo de estado líder no nº de motoristas dirigindo sob efeito de álcool

No entanto, aparece bem na fita como um dos que a população menos consome bebidas alcoólicas

↑ Beber e dirigir ainda é uma prática comum entre muitos brasileiros, apesar de todos os rigores que a atual legislação de trânsito impõe, segundo pesquisa recente divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; Estado do Rio Grande do Sul lidera ranking no país, enquanto Acre é o mais disciplinado e Alagoas o 24º da lista (Foto: Divulgação)
↑ Beber e dirigir ainda é uma prática comum entre muitos brasileiros, apesar de todos os rigores que a atual legislação de trânsito impõe, segundo pesquisa recente divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; Estado do Rio Grande do Sul lidera ranking no país, enquanto Acre é o mais disciplinado e Alagoas o 24º da lista (Foto: Divulgação)

Muitos podem não acreditar, mas Alagoas aparece bem na fita quando o assunto é o consumo de bebidas alcoólicas entre todas as unidades da federação. Pesquisa recente  do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o Estado é o quarto onde menos as pessoas “tomam uma”, embora bares, barracas de praias e restaurantes em Maceió e interior estejam lotados praticamente  todas as noites e, principalmente, nos fins de semana.

O primeiro no ranking é o Rio Grande do Sul. Por lá, 34,6% das pessoas “tomam uma” ao menos uma vez por mês. Em Alagoas, esse índice é de 21,1%.

Mas, ao mesmo tempo em que Alagoas apresenta este índice de uma “certa disciplina” no consumo de bebida alcoólica em relação ao resto do País, o problema é quando alagoanos e gaúchos se emparelham no quesito “dirigir após beber”, segundo constatou a pesquisa do IBGE.

Os números percentuais entre Alagoas e Rio Grande do Sul põem os dois Estados quase que em empate técnico: enquanto no Rio Grande 21,8% dos gaúchos ingerem  bebida alcoólica e ainda insistem em dirigir após se “abastecer” do líquido etílico para pegar a estrada, os alagoanos ficam bem perto, com 20, 5% entre os que bebem e vão encarar a estrada na mistura perigosa entre álcool e direção.

Ou seja, neste quesito, Alagoas se aproxima muito do Estado que lidera o consumo de bebida no País.

Para a psicóloga Tereza Olegário, que tem um trabalho próximo a pessoas que dirigem, uma vez que é uma das professoras do Aulão de Trânsito promovido pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AL), esses dados podem ser explicados por uma questão de costume, de família e tradição.

“Acredito que a maioria dos jovens na faixa aí entre os 20 e 25 anos já entendeu bem que não se pode mais agir como faziam e ainda fazem as pessoas da geração um pouco anterior. Beber e dirigir sempre foram  coisas muitos naturais na cultura dos alagoanos, das famílias, principalmente as mais abastadas, que sempre, em sua maioria, se consideravam acima do bem e do mal”, explica a psicóloga.

“Conheço uma pessoa  que já levava no carro a identidade do esposo, que, na época, era um oficial de alta patente, já pensando em se livrar ou intimidar uma blitz caso fosse parada”, exemplifica Tereza.

Bafômetro: aparelho tolera entre 0 a 0,04 miligramas de álcool por litro de sangue (Foto: Assessoria do Detran)

“Mas esta realidade está mudando, graças a Deus!”, completa a profissional.

Quem também compartilha desta opinião é a diretora da Escola do Trânsito (Edutran), Ana Buarque. “A tradição da bebida é muito forte não só em Alagoas, mas como no resto do Brasil e no mundo, mas como a conscientização é um processo, acreditamos que já conseguimos avançar bastante”, diz Ana Buarque.

“Lei Seca não é para tirar diversão de ninguém, é para preservar vida”

E se as pessoas ainda teimam em pegar o volante para depois dirigir,  estes, com certeza, se arriscam a dar de cara com os rigores da Lei Seca, coordenada pelo Detran em Alagoas.

Um dos integrantes da implantação da Lei Seca no seu nascedouro,   Antônio Monteiro, atualmente coordenador de Segurança no Trânsito no órgão, engenheiro civil pós-graduado em segurança do trabalho e há quatro anos membro da Câmara de Engenharia de Tráfego e da Via, pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) no país, revela alguns dados desde a implantação dos procedimentos da operação.

“Em 2011, ocorriam muitos acidentes no Estado, principalmente em Maceió. Fomos observar como estava sendo feito o trabalho no Rio de Janeiro. A operação em Alagoas teve seu marco zero em 2012. Não olhava cor, não olhava cargo, não olhava nada, só o cumprimento do Código de Trânsito”, ressalta Monteiro.

A operação foi amplamente apoiada por instituições como a Força Nacional, instalada em Alagoas por causa dos altos índices de criminalidade, à época, e por vários órgãos como PM, Bombeiros, Detran, Judiciário, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Segurança Pública, além da Polícia Rodoviária Federal. Nos primeiros anos, se constituía  numa verdadeira força-tarefa. Caso emblemático nesta época  foi a detenção de gente graúda, como desembargadores, secretários de Estado, como foi o caso do ex-secretário Joaquim Brito (PT). “Por apostar em nova mentalidade, foi bem complicada o começo da operação”, lembra Monteiro.

“A Lei Seca não sai à rua para impedir ninguém de beber ou se divertir, a Lei Seca sai para  preservar a vida das pessoas. Quem quiser beber, se divertir, pode fazê-lo, porém com consciência de que ele não poderá dirigir. Mas com a consciência de que   dever passar a chave para uma pessoa habilitada que não vá beber naquele dia”, completa.

Segundo dados do IBGE, 26,5% da população brasileira com mais de 18 anos consome bebida alcoólica uma vez ou mais por mês.

Lei Seca estabeleceu respeito entre alagoanos, mas ainda há gente que questione alguns métodos (Foto: Assessoria do Detran)

Como prova de que direção e álcool não combinam, é no  carnaval que o consumo de bebidas alcoólicas aumenta e os acidentes de trânsito também. 26,5% da população brasileira com mais de 18 anos consome bebida alcoólica uma vez ou mais por mês.

Outro dado é que 24,3% das pessoas no País dirigiram após o consumo de bebida alcoólica. Isso equivale a 4,4% da população brasileira adulta.

Operação pôs freio de arrumação em “intocáveis” com Força Nacional

Um dos pontos que a Lei Seca trouxe benefícios em Alagoas, um Estado marcado pelo abuso de autoridade  dentro do princípio de que todos moram em um Estado pequeno e  cujo jargão é onde “todo mundo conhece todo mundo”, tal foi a situação que para pegar principalmente os intocáveis, como autoridades e os chamados ‘filhinhos de papai’, a Força Nacional cujos policiais não tinham vínculo com alagoanos foi uma das grandes armas para a chamada Lei Seca dar certo por estas bandas.

“Lembro-me de que uma vez um figurão tentou falar com o ex-secretário de segurança Dário César e os policiais da Força Nacional mandaram ele ficar pianinho. E ele teve que ficar”, revela uma das fontes ouvidas pela Tribuna Independente.

O fato é que a operação impôs respeito e ganhou adesão de grande parte da população.

“Uma mãe chegou para mim e disse: ‘meu filho não é maloqueiro, porque o senhor vai prender ele?’. Eu disse: ‘Mãe, é melhor que seu filho saia de uma delegacia do que ele entrar ou sair do IML’. O menino estava em estado deplorável e além de poder acabar com vida dele, também poderia matar outras pessoas alheias a ele”, revelou Monteiro.

RECUSA

Mesmo com grande apoio, Lei Seca ainda é questionada.

A legislação antiga estabelecia 6 miligramas por litro de sangue ou 0, 10 de ar expelido. Ou seja, precisava ser medida. “Mas aí os advogados se apegavam no artifício para não se medir e produzir provas contra seus clientes e pegaram esta brecha. E  isso não está na nossa Constituição”, explica Monteiro.

Um dos que implantaram a Lei Seca em Alagoas, Antônio Monteiro aponta avanços da operação no Estado (Foto: Cortesia)

“A legislação dizia que só era infração se medisse. E os advogados se apegaram a isso, para não medir e o cara dizia que tinha tomado um copo só e que, muitas vezes, não era. Ou seja, era presunção de que o sujeito bebia, mas não tinha como medir por causa da recusa”.

Monteiro alega que na Espanha, por exemplo, se a pessoa se recusar a fazer o procedimento é crime, é descumprir a lei. Houve a mudança do código e se estabeleceu que quem se recusar está infringindo uma norma.  “E agora em novembro de 2016 a recusa é também uma infração de trânsito.

Álcool não é só em bebidas, está também em remédios, alerta diretor

Monteiro explica quais os procedimentos para verificar as condições motoras alteradas de uma pessoa sob efeito de álcool: olhos vermelhos, hálito de álcool, mudança de humor, dificuldade de equilíbrio (cambalear), roupas abertas, olhos dilatados… Constados isso, a autoridade faz o chamado Termo Circunstanciado de Embriaguez (TCE) e encaminha à delegacia. Nesses casos, a pessoa é presa, pode pagar fiança e responde a processo.

O motorista que tivesse até 0,6 grama de álcool por litro de sangue, portanto, não era multado, pois esse nível era considerado aceitável.

Mas atualmente isso mudou. De 0 ao 0,04 no bafômetro não é feito nenhum procedimento, tolerância do Inmetro. De 0, 04 a 0,34 é feito o procedimento administrativo, a multa e apreensão da carteira de habilitação por 12 meses e retenção do veículo até que o motorista em condições ou outra pessoa habilitada retire o veículo. Acima de 0,34 é feito o procedimento do termo de embriaguez e se caracteriza de fato o crime de trânsito.

Mas o diretor faz um alerta muito importante sobre  álcool no sangue que vai além de bebida alcoólica. Os efeitos de se tomar um copo de vinho ou algumas cervejas variam muito de pessoa para pessoa. “Tivemos a situação de uma pessoa tomar um copo de cerveja e não dar nada. Depende do organismo. E gente que tomou uma garrafa de cerveja e apresentar resultado positivo”.

“Uma pessoa certa vez tomou vodca com uísque de 23 horas da noite às 7 da manhã. Dormiu  e acordou as 15 horas. O teste apresentou álcool no sangue. E ele disse que não tinha bebido nada quando foi abordado. Mas deu 0, 36”. Monteiro faz ainda outro alerta: “a bebida destilada dura mais no organismo. Já a cerveja tem efeito mais rápido neste mesmo organismo”.

REMÉDIOS

Mas o código de trânsito não quer saber se o sujeito bebeu cerveja, vodka, vinho, mas o efeito do álcool no sangue. E aqui cabe o cuidado com outra substância que pode conter álcool na composição e comprometer: os remédios.  “É preciso prestar atenção na bula, que pode dar sono, dar desatenção e alterar a coordenação motora”, ressalta.

Sobre quais medicamentos podem conter álcool. “Principalmente os antidepressivos, epilépticos e os para labirintite”. “Há alguns anos, houve um acidente perto de shopping grave. O causador estava sob efeito de remédios e sem condições de dirigir. Um jovem morreu no ponto de ônibus e outro ficou tetraplégico”, conta Monteiro.

AUSTRÁLIA

Tribuna traz aqui como alguns países lidam com bebida e volante. Na Austrália, s saída das boates é possível assoprar em um tubo na parede para identificar o grau de álcool no sangue em um aparelho. Beber e dirigir é considerado uma vergonha tamanha que deixar alguém sair de casa embriagado para pegar a direção é muito malvisto. A folha de registro de infração da polícia australiana é mais completa do que a brasileira, já que o nível de treinamento do policial de rua ou rodoviário permite maior detalhamento na notificação do acidente, na identificação do que ocorreu.

CANADÁ

Policiais cobram a multa de trânsito na hora. Não é aberto um processo com possibilidade de recurso, como no Brasil. Além da cobrança, o motorista canadense é penalizado no seguro do carro, que no ano seguinte sobe de preço por causa da infração.

SUÉCIA

Em lugares como Suécia, toda viatura tem bafômetro, e qualquer policial rodoviário é treinado para identificar provas que não dependem do aparelho. Um policial que suspeita que o motorista está sob efeito de alguma substância pode solicitar ao condutor que caminhe em linha reta, levante uma perna etc. As provas clínicas são suficientes, pela lei, para notificar o motorista como intoxicado, mesmo que sequer se saiba qual foi a droga utilizada.

ESTADOS UNIDOS

O país conta com as Drug Curts – as Cortes de Drogas. Elas funcionam da seguinte maneira: uma pessoa pega embriagada depois de um acidente é identificada como alcoólatra. Ela recebe duas opções: fazer tratamento ou ir para a cadeia. Para aumentar a pressão sobre o infrator, a cadeia fica ao lado da corte. Durante o tratamento, a pessoa é submetida a exames de urina que apontam se está “limpo” ou recaiu.

Além disso, em alguns estados americanos pessoas com problemas com álcool são obrigadas a ter um bafômetro no carro. Antes de ligar o carro, o motorista deve soprar o bafômetro, senão a ignição não se completa. Durante o percurso, o condutor é solicitado a soprar outras vezes, sob pena de o motor desligar.

JAPÃO

Um motorista embriagado que atropela uma pessoa, causando sua morte, pode ser condenado, de cara, à pena de prisão perpétua. Depois, recursos podem reduzir a condenação, mas o impacto da pena costuma inibir esse tipo de ocorrência por deixar claro que a margem para escapar da punição é mínima.


Gráfico mostra queda no número de casos de acidentes de trânsito no Hospital Geral do Estado envolvendo bebidas (Foto: Reprodução)

Fonte: Tribuna Independente / Wellington Santos